Realities musicais são mais justos do que os de culinária

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Ontem, na Audição às Cegas do ‘The Voice Brasil’, houve um momento em que uma candidata titubeou logo na introdução da música, recuperou-se e prosseguiu bem. O vacilo inicial, entretanto, lhe custou a classificação. Pois bem, a dita moça já tinha uma carreira de dez anos e o pai até chegara a comprar um ônibus para que ela excursionasse – investimento alto. Contrasta com alguns dos classificados, gente pobre dos rincões do Brasil cujo único bem é a própria voz.

Daí que me lembrei do ‘MasterChef’ e seus competidores: uma maioria esmagadora de classe média, bem-nascida e bem-criada. Vez ou outra surge algum candidato self-madeque veio “de baixo”. O caso mais notório é o de Gleice Simão, moça da periferia que aprendeu a cozinhar empiricamente. Na edição anterior esse posto foi ocupado por Iranete Santana, uma doméstica que aprendeu a cozinhar na casa da família onde trabalhava havia 21 anos.

Nenhuma delas chegou à final do programa. Ficaram pelo caminho, abatidas em pleno voo pela falta de background que a gastronomia exige. Talent shows que se propõe a escolher chefs de cozinha demandam do candidato conhecimentos refinados, um pouco de rodagem pelo mundo, experiência com temperos caros e exóticos – em suma, coisas que a turma menos abastada não tem condições de bancar.

Era consternador ver o desconforto de Gleice diante de desafios que exigiam a elaboração de pratos dito “finos”. Mais despachada, Iranete se virava do seu jeito. E ambas foram vítimas de trolagem no Twitter devido à simplicidade com que encaravam a cozinha – um contraste com os finalistas – turma descolada e viajada.

O fato é que esse tipo de programa não julga quem sabe cozinhar. Porque cozinhar é outra coisa – é um ato cultural, passado de pai para filho e que está no preparo de uma moqueca ou de um feijão tropeiro, por exemplo. Nesse sentido, o ‘Batalha dos Cozinheiros’, da Record, é mais pé no chão. Os talents que escolhem chefs exigem um preparo e conhecimento que pode ser adquirido em cursos. E não é raro que competidores até façam aulas particulares para estar lá.

Há algo de errado nisso? De modo algum. Mas contrasta com os talent shows de música. Neles também há uma turma cujos pais pagaram aulas de canto, piano, guitarra etc., mas na hora da verdade não é raro vermos que o que vale mesmo é o desempenho, a emoção, a voz. Como bem disse Paulo Ricardo certa vez, a diferença das competições de culinária para as competições musicais é que na primeira você depende da opinião do jurado para saber se um prato ficou bom ou não, enquanto que na segunda a voz do candidato fala por si.

Nem por isso o ‘MasterChef” fica menos interessante. Ali o que atrai o espectador são muito mais as tensões e conflitos do que os pratos em si. Mas o fato é que os talent shows musicais (e vamos incluir aí o ‘X-Factor’) oferecem condições mais paritárias aos concorrentes. Nesse sentido, talvez os programas de culinária sejam mais parecidos com a vida real, que nada tem de justa.

 

Yahoo

21/11/2016

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