Onde estão os programas de entrevistas?

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Então você lê o título desta coluna e pensa (ou diz em voz alta, ao melhor estilo ficção ruim): “Ora, Jeferson de Sousa, deixe de ser cego – a televisão está cheia de programas de entrevistas”. Ok, por um lado você está certo: a TV tem muitos talk shows, tanto em canais abertos quanto nos pagos. Não quer dizer, contudo, que tenha programa de entrevistas. Explico.

A maioria dos talk shows, tanto os daqui quanto os de fora, são programas de entretenimento. Ou seja, estão muito mais preocupados em divertir o público do que em informa-lo. Explica-se daí por que suas pautas estão repletas de perguntas leves, engraçadinhas e bobinhas. A ideia é que o entrevistado se sinta confortável – nada de colocá-lo contra a parede. Nesse sentido funcionam mais como um veículo de divulgação do que qualquer outra coisa.

O problema é que não são apenas os talk shows que estão nesse mood. Muito se falou esta semana da entrevista concedida por Michel Temer ao programa ‘Roda Viva’. A maioria das críticas era a respeito do modo light como os entrevistadores trataram o entrevistado. E olha que ali estava um time experiente e tarimbado para a tarefa.

Não é preciso ser um desafeto de Temer para achar que a entrevista ficou aquém do esperado. Até mesmo a série de entrevistas feitas pelo ‘Jornal Nacional’ com os presidenciáveis em 2014 bateu mais pesado do que o ‘Roda Viva’. Estamos falando de um programa que era conhecido pelas perguntas desconfortáveis com que brindava seus convidados.

Não é de hoje que o jornalismo da TV entrou nessa onda light (abordamos o assunto na coluna de ontem). Não se vê mais um ‘Canal Livre’ como nos anos 1980, uma Marília Gabriela dos bons tempos, um Jô Soares quando estava em forma ou até mesmo um ‘Roda Viva’ em seu auge. Assim como a ficção, o jornalismo parece também estar entregue ao departamento de marketing das emissoras.

Na época em que trabalhei na revista ‘Playboy’ uma das seções mais complicadas era justamente a de entrevistas. Sim, todo mundo conhece esse chiste do sujeito que dizia comprar a revista para ler a entrevista, mas, de fato, assim como as mulheres de capa, a entrevista era um dos principais atrativos da ‘Playboy’. Ali foram publicadas entrevistas memoráveis com Mohamad Ali, Miles Davis, Ayrton Senna, Pelé, Nelson Rodrigues, entre outros.

Mas era uma dificuldade convencer uma personalidade a conceder entrevista. Por quê? Porque o potencial entrevistado sabia que ninguém o pouparia de perguntas duras, indiscretas e incômodas. Essa, afinal, é a função do entrevistador: arrancar respostas inusitadas e reveladoras do entrevistado. O mais é apenas conversa entre comadres.

 

Yahoo

21/11/2016

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